Artigo científico
A trans-escrita de si: subversão e dissidência em A viagem inútil, de Camila Sosa Villada
Autores
Fatianny Didier Sampaio Monteiro; JOSE HUMBERTO RODRIGUES DOS ANJOS
Dados bibliográficos
Ano: 2026
Local de publicação: Fólio
ISSN/ISBN: 1808-3099
Resumo
Este artigo analisa o ensaio autobiográfico A viagem inútil: trans/escrita (2024), da escritora travesti Camila Sosa Villada, com o objetivo de problematizar a literatura e a escrita enquanto dispositivos de subversão de identidades hegemônicas. Parte-se da hipótese de que a escrita de si, ao tensionar normas discursivas e sociais, possibilita a emergência de corpos dissidentes como sujeitos de enunciação, agência e existência, desestabilizando regimes normativos que historicamente os marginalizam. A obra em questão é compreendida, portanto, não apenas como narrativa autobiográfica, mas como gesto político e estético de reinscrição. Nesse sentido, investiga-se a articulação entre saber, poder e discurso a partir das contribuições de Michel Foucault (1995; 2012). Mobiliza-se, também, o desenvolvimento conceitual da categoria de gênero à luz da teoria queer de Judith Butler (2003; 2016), enfatizando a performatividade de gênero e a possibilidade de sua subversão por meio de práticas discursivas dissidentes. Tal articulação teórica permite compreender a escrita de Camila Sosa Villada como espaço de resistência e reconfiguração identitária. Como aporte complementar, recorrem-se às reflexões de Candido (2023; 2011), Dalcastagnè (2005) e Lopes (2005), que possibilitam pensar a literatura como campo de disputa simbólica, crítica social e transgressão, sobretudo no que se refere à representatividade de sujeitos historicamente excluídos. Metodologicamente, a pesquisa fundamenta-se em levantamento bibliográfico, tomando como corpus a obra analisada e textos teóricos centrais para a discussão proposta. Desse modo, busca-se evidenciar como a literatura pode operar como prática crítica capaz de tensionar normas, ampliar horizontes de inteligibilidade e afirmar novas possibilidades de existência.